segunda-feira, 21 de julho de 2025

 



ENTENDENDO A HISTÓRIA

Itapecuru Mirim: sua gente, sua história (Pessoa, 2015)

 “A região, inicialmente habitada por indígenas, viu a chegada de portugueses e a construção dos primeiros engenhos, como o Engenho do Itapecuru”.


A primeira referência histórica sobre Itapecuru Mirim, que se tem registro data de 1648, e refere-se à consulta do Conselho Ultramarino ao Rei D. João IV, acerca da mudança da sede do Governo de São Luís/MA, para Itapecuru Mirim (Buzar, 2013).

Em 25 de agosto de 1768, foi enviado ao Rei de Portugal, D. José, um pedido dos moradores da Ribeira do Itapecuru, para expedir um alvará de confirmação da vila, datado de 12 de setembro de 1767, no entanto ficaram por mais de 50 anos sem respostas.

Mas, o núcleo de Itapecuru Mirim entre os anos de 1795 a 1808, cresceu e passou a se chamar Arraial da Feira, localidade onde se juntavam boiadas para serem negociadas nas fazendas, proporcionando dessa forma, o sustento dos lavradores, bem como dos habitantes do povoado. O seu crescimento e enriquecimento à época, deu-se pela atividade do comércio, da produção de arroz, algodão e criação de gado.

Com o crescimento populacional, e por ter uma posição geográfica privilegiada, pois, o sítio urbano localizava-se bem próximo à margem do rio Itapecuru, Arraial da Feira, pela provisão régia de 25 de setembro de 1801, passa a ser chamada de Freguesia de Itapecuru, referindo-se ao rio, sob a invocação de Nossa Senhora das Dores, um distrito subordinado ao município de São Luís.

DETALHE: Freguesia era uma divisão territorial administrativa criada pelo regime português, obrigatória para a igreja católica (as santas missões) e o Estado, e dando sequência aos eventos de prosperidade eram criadas as Vilas, e posteriormente, Cidades (Santana, Blog 2017).



Seguindo seu curso e desenvolvimento, torna-se Vila de Itapecuru Mirim também por provisão régia de 20 de outubro de 1818, quando foi constituída a Casa de Cadeia e Câmara, desmembrada de São Luís, constituindo-se assim, um distrito sede, já com a nomeação de dois Tabeliães Públicos Judiciais e de Notas, entre outros cargos importantes para a Vila, conquistando sua autonomia política. Mais tarde foi criada a Comarca de Itapecuru Mirim pela Carta de Lei Nº 07/1835, hoje, Fórum Desembargador Raimundo Publio Bandeira de Melo, como instituição judiciária.

O nome Itapecuru Mirim foi para diferenciar de Itapecuru Grande (hoje, Rosário/MA).

Itapecuru Mirim tornou-se uma das mais prósperas vilas do Maranhão de 1818 a 1880, atrás somente da capital São Luís e de Caxias, tendo importante participação na história do Maranhão, como por exemplo, na adesão do Maranhão à independência do Brasil, na Guerra da Balaiada, dentre outros fatos marcantes do Maranhão e do Brasil.

A Vila de Itapecuru Mirim foi elevada à categoria de cidade em 21 de julho de 1870, pela Lei Provincial Nº 919, conferido pela Coroa Portuguesa como um título de reconhecimento pela importância administrativa e populacional.




Itapecuru Mirim, cidade de relevo bastante modesto, com uma riqueza única que tem o rio de mesmo nome, o rio Itapecuru, principal atrativo natural, possuidora de uma vasta riqueza cultural e religiosa. A cidade dos babaçuais. Somos todos frutos da miscigenação dos povos europeus, africanos, indígenas. Cada um de nós herdou um pouco dessa mistura que teve início há quase quatro séculos. Somos um povo mestiço, negro, indígenas, colonos portugueses, além dos sírios, libaneses, árabes, japoneses, gaúchos, paraibanos, cearenses, baianos e paraenses e tantos outros que aqui aportaram buscando oportunidades. Um povo tipicamente itapecuruense que canta e encanta, mas que também sofre, luta, estuda e trabalha.

Nosso povo contempla os trabalhadores e trabalhadoras rurais, artesãs, pescadores, extrativistas, empresários, formais, informais, trabalhadores da saúde, da educação, do entretenimento, nossos alunos, universitários, enfim, cidadãos sonhadores e realizadores. Porém, uma parte, há de se cuidar para não perdermos a luta para as drogas e a violência.

 Temos história, cultura, literatura, artes e itapecuensidade no sangue e na alma.  Nossa culinária é densa, fecunda. Nossa fauna e flora rica, única. Somos meio amazônicos, meio cerrado.

Nosso hino, fala por nós: “Terra de amor, Itapecuru”. Nossa bandeira traduz o nosso amor por nossas riquezas, onde a “estrela” contida no canto superior direito, representa a Constelação do Cruzeiro do Sul, mas também a cidade de Itapecuru Mirim nos céus do Maranhão/Brasil. Nosso Brasão resume nossa história, nossa riqueza, nosso povo.

            Somos lendas, crendices, superstições, cantigas, danças, festas. Somos folclore, a cultura popular. O nosso jeito de pensar, agir e sentir nos define. Estamos nas entranhas das religiões e na crença de um Deus único, soberano, indivisível.

Itapecuru Mirim e seu povo tem essa mágica única de manifestar sua alegria, celebrar e agradecer.

 

RESUMÃO – LINHA DO TEMPO DE ITAPECURU MIRIM/MA.

Habitação Indígena – mais de 347 anos

Tempo de existência (primeiros registros – 1948) – 347 anos

Núcleo desanexado de Rosário – (1795) – 230 anos

Freguesia – (1801) – 224 anos

Vila – (1818) – irá completar em 2025, 207 anos – data mais importante para Itapecuru Mirim, quando adquiriu sua Autonomia Política e Administrativa.

Apogeu da Vila do Itapecuru Mirim – 1818 a 1880.

Cidade (1870) – 155 anos.

 Que o nosso povo continue guerreiro e aguerrido!



Texto da Professora, escritora, pesquisadora e ativista cultural Assenção Pessoa.

16/07/2025.



LOUVAÇÃO A ITAPECURU-MIRIM

Assenção Pessoa

 

 

Minha bela cidade!

De povo alegre, desperta humilde.

Ordeira e gigante, e a esperança de vê-la brilhante.

Dos filhos da terra ao o imigrante/

Louvores além da ribeira distante.

 

Minha bela Itapecuru! Cidade e rio

Pérola fulgente de céu cor de anil

Saudade dos teus, ecoa nos recantos,

Desse nosso Brasil

Sussurram teu nome sutil

Itapecuru encanto juvenil.

 

Minha bela cidade!

Eu quero viver, a tua beleza, tua poesia.

Quero respirar, teus cultos, tuas lendas...

Cantos e fantasias.

Nas águas do teu rio, meu corpo banhar,

E ver o molejo da morena faceira,

Ao lado da ribeira, desnuda a bailar.

Liberdade tigreira, mistério a saudar.

 

Minha bela cidade! / de lutas e glórias

A terra do índio/ orgulho e vitória

Ó ninho do pássaro!

Xexéu da Ribeira/ és tu Itapecuru

De norte a sul/ Jardim do meu Maranhão/

Que outrora vivera.

 

 


sexta-feira, 13 de junho de 2025

             

                                                     Foto: Luís Lopes de Mendonça e Filomena Suzana Lopes

 LUÍS LOPES DE MENDONÇA

                   UM DESBRAVADOR FERROVIÁRIO NO PROGRESSO DE ITAPECURU MIRIM/MA.

 

Luís Lopes de Mendonça nasceu em 5 de agosto de 1890 no Estado da Paraíba, sertão paraibano. Filho de família pouco abastarda, e devido à falta de terras e sem condições de produzir os alimentos da agricultura de subsistência, Luís Lopes foi obrigado a sair de casa muito jovem por longos períodos, em busca de trabalho braçal nas fazendas de algodão, outras plantações e pecuária.

 Cansado de trabalhar com mão de obra barata em troca de alimentos ou salários irrisórios, Luís Lopes migrou para o Maranhão, chegando a Itapecuru Mirim, por volta de 1906 para trabalhar na construção da linha férrea A. E. F. São Luís-Teresina, no trecho Kelru – Itapecuru chegando até Cachimbos, prolongado depois em 1920, até a cidade de Caxias.

 Luís Lopes Mendonça como outros trabalhadores, tiveram participação ativa, com mão de obra braçal, na construção da via férrea. Esse fato iniciou um novo ciclo na vida desse paraibano de fibra, que não tinha medo de trabalho.

             Ainda muito novo e de estatura mediana enfrentou com coragem o trabalho pesado de erguer a via férrea, abrindo caminhos e demonstrando liderança entre os companheiros. Essa qualidade de líder lhe rendeu o antigo cargo de Feitor, uma espécie de gerente da construção da via. Agora não mais como ‘cassaco’, mas, como trabalhador efetivo da Estrada de Ferro, sua função era comandar e não mais ser comandado.

 Com muita seriedade, Luís Lopes contribuiu para construção de toda a via que ligava Cachimbos (Cantanhede) a Kelru (Itapecuru) e depois até Caxias. Luís Lopes Mendonça foi uma peça fundamental nesta grande obra. Esse fato também influenciou a vida do senhor Luís Lopes na organização social da comunidade Trizidela em Itapecuru Mirim. 

 Luís Lopes, aqui constituiu família. Casou-se pela primeira vez aos 22 anos, em 1912. Ficou viúvo sem ter filhos. Como não era dado a viver sozinho, algum tempo depois casou-se novamente. Dessa união nasceu sua primeira filha Luísa, que teve dois filhos: Antônio e Ribamar (netos de ‘seu Luís’, como era mais conhecido).

 Enviuvou novamente. E tempos depois, viu sua única filha morrer no parto do seu segundo filho (Ribamar). Luís Lopes ficou com os dois netos e mais uma vez sozinho.

         Em 1948 casou-se com Filomena Susana Matos, da Família Matos de grande influência em Itapecuru Mirim. Dessa união nasceram duas filhas: Benedita Suzana e Tereza Suzana.

 

Luís Lopes no casamento de sua filha Benedita.

Pela proximidade da sua residência também com BR 222, os viajantes sempre se aportavam na residência do casal para descansar e se alimentar.

 Aos 65 anos (1955) Luís Lopes se aposenta da Rede Ferroviária S. A.  Rede ferroviária que liga a capital do Maranhão, São Luís à Teresina, capital do Piauí.

         Luís Lopes de Mendonça, além de ser um funcionário da “Estrada de Ferro”, era lavador, horticultor, criador de pequenos animais domésticos e também algum gado. Dono de um pequeno comércio varejista e açougue, Luís Lopes alavancou o comércio local da Trizidela contribuindo para o desenvolvimento da economia local, da mesma forma que contribuiu para a conclusão da Estrada de Ferro São Luís - Teresina, no âmbito da cidade de Itapecuru Mirim/MA.

         Empreendedores, Luís Lopes de Mendonça e Filomena Suzana Lopes, morando próximo da Estação Ferroviária (no bairro Trizidela), colocaram um pequeno restaurante, o qual fornecia alimentos aos funcionários da REFFSA que trabalhavam na Estação de Itapecuru Mirim, e também aos funcionários dos trens de passageiros, trem pagador e de cargas (tudo por pré-agendamento). Durante a parada do trem de passageiros na Estação, a venda era de bolos, cafés e produtos afins.

         Luís Lopes era incansável. O grande mestre não parava. Cativou todos com sua generosidade. Nunca negava ajuda a quem o pedisse. Sempre alimentava a quem não podia pagar, dava água a quem tinha sede. E dormida a quem não tinha onde pernoitar. Enérgico sim, porém, um senhor bondoso, de grande espírito solidário.

          Luís Lopes de Mendonça faleceu em 10 de julho de 1980, aos 90 anos, após uma longa luta contra um câncer de esôfago. Deixou, a esposa, 2 filhas, 6 netos, 9 bisnetos e 1 tataraneto de cinco meses, na época.

 

                     Última despedida, no Bairro Trizidela ao lado da Estação, em frente à sua residência. Filhas, netos, bisnetos, genros, e demais familiares.





 Texto de Assenção Pessoa

Professora Especialista, com formação em Biologia, Escritora, Pesquisadora, Ativista cultural,
Membro da Academia Itapecuruense de Ciências, Letras e Artes (AICLA).


 

 

 

  

sexta-feira, 19 de julho de 2024

 

                                                  Uma Comendadora em Itapecuru Mirim



                 O dia 17 de julho de 2024, foi muito importante para Assenção Pessoa. Agraciada com a Comenda Municipal de Mérito Mariana Luz, LEI Nº. 1319/2014, Maria da Assenção Lopes Pessoa pelo mérito com o grandioso trabalho como professora, conduzindo por mais de 30 anos a vida escolar de dezenas de milhares de alunos que vão da educação infantil, ao Ensino Médio, muitas vezes em funções alternadas como Gestora Escolar, Supervisora, Coordenadora Pedagógica e Mestra de sala de aula. Assenção também foi reconhecida como uma escritora de talento, na literatura infantojuvenil, na poesia e nos contos que escreve. 

      Na cerimônia de outorga da Comenda, Assenção Pessoa agradeceu a indicação e dedicou a sua Comenda Municipal de Mérito Mariana Luz a seus avós, in memoriam, Luís Lopes de Mendonça e Filomena Suzana Lopes de Mendonça. Ele, que foi um dos desbravadores na construção da via férrea São Luís -Teresina, trabalhando entre Rosário e Coroatá, tendo residência fixa à beira da linha, em Itapecuru Mirim, no bairro Trizidela. Ela, cozinheira de mão cheia, o ajudou a construir uma família sólida e a atravessar por momentos e situação adversas e até de calamidades quando das grandes enchentes do Rio Itapecuru. Assenção reconhece a importância de seus avós na sua vida e se emociona quando fala deles com carinho e dedicação. 

          A nova Comendadora também lembrou de sua adolescência quando teve o privilégio para integra juntamente com um grupo de alunos de outros municípios do Maranhão, na Caravana da Integração Nacional, e participar a posse do último Presidente Militar do Brasil. Ela que foi escolhida pelos professores João Silveira e Nonato Lopes por ser a aluna com as melhores notas em todas as disciplinas escolares no município de Itapecuru Mirim. Lembrou, Assenção que esse foi seu primeiro e grande reconhecimento em sua terra natal, sendo a Comenda seu segundo maior reconhecimento. Em seu discurso, ainda agradeceu a seus familiares e amigos. Atualmente a Comendadora Assenção Pessoa exerce função na gratificada nas áreas da cultura e turismo na Prefeitura Municipal, portanto sendo grande merecedora dessa ímpar honraria do poder Executivo Municipal.


BIOGRAFIA RESUMIDA

 

Maria da Assenção Lopes Pessoa. Itapecuruense, Filha de Antônio Ferreira Lopes e Maria da Paz de Menezes Lopes. É Professora com Licenciatura em Ciências pela Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), especialização em Biologia pela Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) e em Gestão, Supervisão e Planejamento Educacional pelo Instituto Educacional Superior Franciscano (IESF), escritora, poeta, pesquisadora, membro fundadora da Academia Itapecuruense de Ciências, Letras e Artes (AICLA), membro efetivo da Sociedade de Cultura Latina do Estado do Maranhão (SCLMA), membro correspondente da Academia Vargem-grandense de Letras e Artes (AVLA). Como Professora, deu sua contribuição nas escolas da rede municipal: João da Silva Rodrigues, Gonçalves Dias e Gomes de Souza, e, na rede estadual, nas escolas CEM Prefº. Newton Neves, CAIC e Ayrton Senna. Por várias vezes foi coordenadora pedagógica, gestora escolar honrando sua missão de educar e formar cidadãos críticos e responsáveis. Em Pirapemas, Assenção foi diretora e supervisora escolas de escola da rede municipal (fundamental e educação infantil) e Professora e gestora do Centro de Ensino Pirapemas, da rede estadual. No campo da literatura, possui Trabalhos publicados nas áreas da poesia; contos; infanto-juvenil; pedagógicos, como Itapecuru Mirim, sua gente, sua história; e participação 08 Antologias, além de participação em revistas científicas e literárias. É Membro coordenador da FESTA LITERÁRIA DE ITAPECURU MIRIM (FLIM). Atualmente exerce função na área da cultura e turismo na prefeitura municipal de Itapecuru Mirim.

 

COMUNICADO


REGISTROS 




A presença da família, apoio incondicional. 


 

 


terça-feira, 14 de novembro de 2023

 

HOMENAGEM A GONÇALVES DIAS


GONÇALVES DIAS E OS GONÇALVES DE TODOS OS DIAS

Maria da Assenção Lopes Pessoa


“Minha terra tem palmeiras, /onde canta o sabiá,

as aves que aqui gorjeiam, /não gorjeiam como lá...”

 

(Fragmento de Canção do Exílio, Gonçalves Dias)


Esses versos com efeito mágicos, reafirma que esse poeta se permite para todas as idades, gerações e descendências, por certo atemporal, como é a vida romântica de um exilado em sua própria essência.

Todos nós sabemos da importância de Gonçalves Dias (1823-1864) para a geração romântica de outrora e para a contemporaneidade.  Maranhense com frágeis anseio saudosista, um naufrágio, foi o protagonista do encerramento precoce de sua história. Poeta de romântico indianista, nacionalista, tendo como ícone a Canção do Exílio (1843), a poesia mais ditada, mais imitada, mais parafraseada de todos os tempos. Poesia emblemática de feição amorosa, onde se percebe a idealização da figura feminina intrigante desse período de sua existência poética e histórica, além da expressão de um nacionalismo, um orgulho exagerado por sua terra natal, onde exalta a sua exuberante natureza.

Inserido em uma escola estética com característica sentimental indócil, a individualização e idealização do amor-perfeito, os Gonçalves Dias atuais ainda buscam esse sentido para suas poesias. Poetas de diversos estilos, seguidos por diversos autores reconhecidos, ou anônimos, que certamente poderiam ser os mais lidos e apreciados pelos mais diversos tipos de leitores. Nos Gonçalves de todos os dias, percebem-se outros poetas e romancistas a transcender o espírito nostálgico do romantismo brasileiro.

Castro Alves, por exemplo, o poeta dos escravos, o principal poeta da Terceira Geração desse entoar Romântico, retrata, sob o efeito do lírico-amoroso, a influência ultrarromântica da poesia vivida por Gonçalves Dias.  

A duas flores

São duas flores unidas, /São duas rosas nascidas

Talvez no mesmo arrebol, /Vivendo no mesmo galho,

Da mesma gota de orvalho, /Do mesmo raio de sol.

[...]

Unidas, bem como os prantos, /Que em parelha descem tantos

Das profundezas do olhar... /Como o suspiro e o desgosto,

Como as covinhas do rosto, /Como as estrelas do mar.

[...]

(Espumas Flutuantes)

Álvares de Azevedo, outro poeta da 2ª geração romântica brasileira, nos seus versos de A Lagartixa, – “Tu és o sol e eu sou a lagartixa” – a figura do amante idealizado, compara o sujeito lírico a uma lagartixa, fugindo o nobre poeta do “eu” lírico, padrão romântico heroico e virtuoso, ao mesmo tempo, em que o representa na forma animal.

A Lagartixa

A lagartixa ao sol ardente vive /E fazendo verão o corpo espicha:
O clarão de teus olhos me dá vida, /Tu és o sol e eu sou a lagartixa.
[...]
Vale todo um harém a minha bela, /Em fazer-me ditoso ela capricha...
Vivo ao sol de seus olhos namorados, /Como ao sol de verão a lagartixa.

Casimiro de Abreu, também da 2ª geração romântica, autor de As Primaveras, no poema Meus Oito Anos, descreve uma nostalgia bucólica, marcada pela simplicidade e por uma espontaneidade que se reporta ao seu patriotismo e sua idealização amorosa, seguido do pressentimento da morte. Os poemas de Casimiro apresentam-se num contexto de fuga de um presente inquieto, atordoado, atendo-se ao passado, como único refúgio seguro e feliz a lhe proporcionar uma singular existência configurada na poesia de fluido gonçalvino.

Meus Oito Anos

"Oh! que saudades que eu tenho /Da aurora da minha vida, /Da minha infância querida

Que os anos não trazem mais! /Que amor, que sonhos, que flores, /Naquelas tardes fagueiras

À sombra das bananeiras, /Debaixo dos laranjais!

 

Como são belos os dias /Do despontar da existência! /– Respira a alma inocência

Como perfumes a flor; /O mar é – lago sereno, /O céu – um manto azulado,

O mundo – um sonho dourado, /A vida – um hino d’amor!

[...]

 

A poesia romântica de Gonçalves Dias se entranha na poesia dos poetas brasileiros, com recusas por vezes intensas, por vezes amarguradas, solitárias, entristecidas. Mas, ainda assim, é o gênero mais preferido dos leitores. Será por que somos eternos e irrecuperáveis românticos? Os versos do romantismo sempre povoam o nosso célebre imaginário, deixando marcas indeléveis de nossa memória afetiva na nossa história e na história da literatura nacional.

 

Os Gonçalves de todos os dias, estão nas calçadas recitando os poemas da vida, dentro dos escritórios, em salas com ar condicionado ou ao ar livre. Desde o período romântico até os dias modernos contemporâneos temos uma fila de poetas cuja missão é levar esses estilos de vida, aos apreciadores da língua e da literatura portuguesa-brasileira. De Gonçalves Dias a Paulo Leminski, no seu jeito irreverente de se comunicar por meio da poesia, temos um leque de autores que, imensuravelmente excêntricos, descrevem, além do clássico romantismo, toda a diversidade poética presente na natureza e na vida. Destaco aqui Chico Buarque de Holanda, Maria Firmina dos Reis, Fagundes Varela com exemplo desses contrastes na sua forma de falar dos sonhos, reivindicar direitos e respeito, além de expressar todas as formas do amor e de amar.

O romantismo de Chico Buarque e Tom Jobim transborda no amor pelas descrições sofridas no sujeito em transformações, aportando na modernidade, viajando nos campos da sexualidade, identidade e liberdade. O amor transborda pelos poemas de Chico Buarque, nas suas músicas e livros. Na canção Sabiá apresenta uma das releituras e citações de Canção do Exílio.

Sabiá

Vou voltar /Sei que ainda vou voltar /Para o meu lugar
Foi lá e é ainda lá /Que eu hei de ouvir /Uma sabiá

Vou voltar /Sei que ainda vou voltar
Vou deitar à sombra de uma palmeira /Que já não há
Colher a flor que já não dá /E algum amor talvez possa espantar
As noites que eu não queria /E anunciar o dia
[...]

 

          Maria Firmina dos Reis (1822-1917), maranhense, contemporânea precursora do romantismo afrodescendente, traz na sua escrita a luta silenciosa abolicionista, antes mesmo de Castro Alves. Úrsula, sua obra mais completa, reflete exatamente o empoderamento da mulher negra na nossa literatura, traz a negritude para o centro, o sujeito protagonista de sua história, com a sua própria linguagem e experiências.

 

Meteram-me a mim e a mais trezentos com­panheiros de infortúnio e de cativeiro no estreito e infecto porão de um navio. Trinta dias de cruéis tormentos, e de falta absoluta de tudo quanto é mais necessário à vida passamos nessa sepultura até que abordamos as praias brasileiras”. (Úrsula, 1859)

 

Escritor e boêmio carioca, Fagundes Varela (1841-1875), foi de uma geração ultrarromântica. Assumindo um tom bucólico, suas composições se focam em descrever a natureza. Presente identificada por muitos dos seus pares contemporâneos, o poeta evidencia seus sentimentos mais negativas, como a melancolia, o pessimismo, a obsessão pela morte, a obstinação em fugir da realidade. Ainda assim, sua lírica demonstrava temáticas políticas e sociais, fatos que o aproximavam de gerações futuras. Varela, o poeta de transição, assimilou traços do Romantismo em sua mais diversas fases. Cântico do calvário, é um poema emocionante, escrito em memória de seu filho de 11 anos, que está no livro Cantos e Fantasias (1865), o mais conhecido.

 

Cântico do calvário

[...]

Que belos sonhos! Que ilusões benditas! /Do cantor infeliz lançaste à vida,
Arco-íris de amor! Luz da aliança, /Calma e fulgente em meio da tormenta!

[...]

 

Machado de Assis (1839-1908), foi um autor com um arcabouço de influência romântica, eterna, como mostra suas obras Ressurreição (1872), Histórias da Meia-noite (1873), A Mão e a Luva (1874).

 

Um nome pouco lembrado deste período foi a professora, poeta Narcisa Amália de Campos (1852-1924), primeira mulher jornalista desse nosso país, vasto de intelectualidades femininas anônimas e esquecidas ao longo do tempo. Com forte consciência social, demonstrado em seus artigos de opinião, Narcisa reflete acerca dos direitos das mulheres e pessoas escravizadas, além de assumir outras posturas na literatura, alcançando grande projeção em todo o Brasil. Nebulosas (1872), único livro publicado, é um exemplo dessas preocupações, versando também os sentimentos e a exaltação à natureza.

 

Por que sou forte

 

Dirás que é falso. Não. É certo. Desço /Ao fundo d’alma toda vez que hesito...
Cada vez que uma lágrima ou que um grito /Trai-me a angústia - ao sentir que desfaleço...
[...]

É que há dentro vales, céus, alturas, /Que o olhar do mundo não macula, a terna
Lua, flores, queridas criaturas, /E soa em cada moita, em cada gruta,
A sinfonia da paixão eterna!... /- E eis-me de novo forte para a luta.

 

Cecília Meireles (1901-1964), com temas recorrentes sobre o amor, a mote, o tempo e a eternidade, primeira escritora brasileira a se tornar realmente famosa no meio literário. Tema que estão evidenciados em Vaga Música e Mar Absoluto. Com apenas 18 anos, Cecília se integra ao mundo editorial. Os poemas, romances, literatura infantil e textos jornalísticos estão presentes no seu vasto currículo premiado.

 

Mar Absoluto (fragmentos)

 

Foi desde sempre o mar, /E multidões passadas me empurravam
como o barco esquecido.

[...]

Então, é comigo que falam, /sou eu que devo ir.
Porque não há ninguém, /tão decidido a amar e a obedecer a seus mortos.

[...]

 

            Falando de escritoras, refiro-me a Mariana Luz (1871- 1960), poeta maranhense da cidade de Itapecuru Mirim, que se pode observar na sua escrita, os traços da escrita de Narcisa Amália, Maria Firmina dos Reis e outras autoras brasileiras. Com apenas uma única obra publicada, Murmúrios, essa obra passeia por temas melancólicos de amor e dor, vida e morte, além de traços religiosos. Entre o preconceito e a invisibilidade, Mariana Luz, ainda assim, consegue ser a 2ª mulher a entrar para a Academia Maranhense de Letras (1949). Isolada na solidão de seus dias, Mariana merece reconhecimento e uma reparação histórica, por seus escritos de valor imensurável na literatura do Brasil.

 

Supremo Amor

(Mariana Luz)

 

[...]

Se te perdesse, ó Deus, quantas angústias,

Que martírio cruel não sofreria

Meu pobre coração que te ama tanto

E cujo afeto aumenta dia a dia.

[...]

 

O mundo literário atual do Brasil está repleto dos vários Gonçalves Dias, nos dias atuais. O romântico que lateja nos corações avassaladores, no amor à natureza e às diversas causas: indígenas, feminicídio, valorização do negro, da mulher, das relações de gênero, enfim, nos que punge e dilacera, os arrancando do ostracismo presente na vida de poetas e romancistas famosos ou anônimos escritores brasileiros e leitores compulsivos.

 

Ao observar os compositores das músicas do Bumba-meu-Boi maranhense, os trovadores, os repentistas, os cordelistas na nossa região nordestina, vejam que está presente em algum ponto expresso ou nas entrelinhas, os traços de Gonçalves Dias, o amor à pessoa amada, a saudade, o espírito de luta e contemplação, a condição do poeta lírico-amoroso, indianista, também presente nas nuances dos autores e autoras maranhenses.

 

Urrou de boi

 

Lá vai meu boi urrando, subindo o vaquejador

Deu um urro na porteira, meu vaqueiro se espantou

E o gado da fazenda com isso se levantou

Urrou, urrou, urrou, urrou,

Meu novilho brasileiro, que a natureza criou...

[...]

 

(Mestre Bartolomeu dos Santos, o mestre Coxinho, 1972)

  

Passando pela geração dos novos poetas líricos-romântico maranhenses, o que dizer dos escritores itapecuruenses, nas mais diversas escolas da literatura brasileira, como, Assenção Pessoa, Teotônio Fonseca, Moaciene Lima, Samira Fonseca e tantos que ainda nem sequer conseguiram publicar seus escritos? O Maranhão, traz a marca do Brasil linguístico, protagonista da poesia e de grandes poetas. Inserido nesse contexto, Itapecuru Mirim, cidade mais que hospitaleira, é a cidade dos mais diferentes Gonçalves Dias, na poesia, no romance, nas diversas formas de expressão romântica, escola mais vivida por suas leituras e seus leitores. Essa geração contemporânea traz o reflexo das escolas literárias anteriores, mas, sem se perder do tempo de agora. Ainda, nesse contexto podemos encontrar os nossos Gonçalves Dias nas grandes profissões de advogados, jornalistas, etnógrafos e teatrólogos...

 

Tudo passa. Tudo fica. O vento passa. E leva tudo.

Mas a obra permanece.

E faz surgir futuros Gonçalves Dias, todos os dias.

 

 A Academia Itapecuru Mirim e a Prefeitura de Itapecuru Mirim promoveram a 6ª Festa Literária de Itapecuru Mirim (FLIM), nos dias 8,9 e 10 de novembro de 2023.  O tema deste ano foi: Os duzentos anos de Gonçalves Dias.

Alguns registros dessa linda festa.












 Assenção Pessoa, Professora, escritora, poeta. Membro da ACADEMIA ITAPECURUENSE DE CIÊNCIAS LETRAS E ARTES (AICLA)