OPINIÃO: 21 DE ABRIL, TIRADENTES E A DEMOCRACIA SOB VIGILÂNCIA: UMA REFLEXÃO NECESSÁRIA.
OPINIÃO
21 DE
ABRIL: TIRADENTES, DEMOCRACIA E VIGILÂNCIA CIDADÃ
No dia 21 de abril, o Brasil homenageia Joaquim José da Silva Xavier, O Tiradentes. A Inconfidência Mineira representou o desejo de liberdade, justiça e participação popular, valores que continuam fundamentais para a democracia no Brasil e no Mundo.
Porém, a história revela que a democracia não é algo assegurado, garantido indefinidamente. Não é um bem permanente confiável. O tempo e a história demonstram que a democracia deve ser construída num esforço diário, pois qualquer descuido ela pode ficar fragilizada, e essa fragilidade é percebida quando instituições são desrespeitadas, quando a desinformação se espalha em forma de Fake News, ou quando surgem tentativas de ruptura da ordem democrática, como o que ocorreu recentemente no país, o chamado “o dia 8 de janeiro de 2023”, lembrando-nos da vulnerabilidade do nosso sistema democrático.
Portanto, ao recordar Tiradentes,
símbolo de luta por liberdade e justiça social, não celebramos apenas uma
figura histórica ou uma história do passado, é a reafirmação do diálogo, do
respeito às instituições e do compromisso coletivo com a democracia perene. Essa
celebração nos convida para estar vigilantes, viver a cidadania e assumir a
responsabilidade de proteger cada geração em suas conquistas democráticas,
garantindo assim o direito a liberdade e a justiça, pilares da sociedade
brasileira e mundial.
1.
Justificativa Social
Do ponto de vista social diante do contexto contemporâneo de intensificação das disputas políticas, polarização ideológica e circulação de desinformação, fatores que impactam diretamente a percepção pública sobre a democracia, torna-se relevante a compreensão da memória histórica do 21 de abril, como elemento afirmador do direito à cidadania plena. O fortalecimento da educação formal e estudos reflexivos e científicos são cruciais para o engrandecimento e valorização da democrática.
Sendo
assim, pode-se afirmar que a análise crítica do significado simbólico do 21 de
abril pode estimular reflexões sobre a importância da cidadania, do respeito às
instituições e do compromisso coletivo com os princípios democráticos. Além
disso, os contextos educacionais, institucionais e sociais, podem subsidiar
práticas pedagógicas, projetos educativos e políticas públicas voltadas ao
fortalecimento da cultura, das artes, da ciência na promoção de uma verdadeira
democrática e participação cidadã.
2. 2. Desenvolvimento
O dia 21 de abril, dedicado in
memoriam a Joaquim José da Silva Xavier, é um dia para ser lembrado como um
marco da luta por liberdade, ainda que tardia no Brasil. Tiradentes, o símbolo
da resistência ao domínio colonial português e personagem central da
Inconfidência Mineira, esse movimento que expressava insatisfação com a
exploração econômica e a ausência de autonomia política, não pode ser limitado
apenas a uma reverência simbólica. Recentemente, o Brasil voltou a vivenciar
sinais preocupantes de instabilidade institucional governamental, que evidenciaram
a fragilidade e não a solidez da democracia brasileira. Os ataques do 8 de
janeiro de 2023 revelaram essa fragilidade após décadas de redemocratização
brasileira. Apesar da aparente restauração da democracia brasileira, ainda
persistem tensões e forças sociais dispostas a questionar ou desestabilizar a
ordem constitucional.
Esse episódio serviu para revelar que a democracia
não é um estado permanente, mas um processo contínuo que exige vigilância
constante. Democracias sobrevivem quando sustentadas por uma cultura política
comprometida com o respeito às regras constitucionais do direito democrático,
reconhecimento e legitimidade das instituições.
Nesse sentido, a figura de Tiradentes nos reporta
para uma nova realidade. A luta por liberdade, que outrora significava romper
com a dominação colonial, hoje assume contornos históricos-sociais diferentes. Significa
a busca pela garantia da pluralidade política e enfrentar a desinformação que abala
a confiança pública. Essa ameaça contemporânea à democracia não se manifesta
apenas por meio da força física ou de tentativas explícitas de golpe, mas principalmente,
por meio da disseminação sistemática de discursos que levam a população a desacreditam
na ciência, na política, nas instituições, descaracterizam as artes e a
cultura, dentre outros fatos que enfraquecem o diálogo público e estimulam a
radicalização social.
Outro aspecto relevante de convergência do 21 de
abril com os dias atuais é a compreensão de que a vulnerabilidade democrática
não é exclusividade do Brasil, mas países dos diferentes continentes que se
dizem democráticos têm enfrentado crises semelhantes, nas quais polarizações
extremas, desinformação e desconfiança institucional tornam-se elementos que
fragilizam a governabilidade e a convivência democrática. No contexto
brasileiro, essa vulnerabilidade adquire contornos específicos, a exemplo, o
golpe de 1964, cujos efeitos ainda reverberam na memória política nacional. Diante
desse cenário, a celebração de 21 de abril deve ser entendida não apenas como
um tributo ao passado, mas como um convite à reflexão crítica sobre o presente.
Recordar Tiradentes ressignifica reconhecer que a
liberdade e a democracia não são conquistas definitivas, mas a construção permanente
do compromisso social. Isso implica fortalecer uma educação ampla, a ter acesso
a serviços de informação confiável e primar pela promoção constante de espaços
de diálogo que valorizem a diversidade de opiniões, o respeito, que reprimam
todas as formas de violência, sem abrir mão dos princípios democráticos de
direito.
A memória de Tiradentes deve servir como alerta e
inspiração. Alerta, porque a história demonstra que conquistas políticas podem
ser perdidas quando a sociedade se torna indiferente, imparcial, ou ainda
tolerante diante das mais diversas formas de ameaça à democracia. Inspiração,
porque reafirma que a participação cidadã e o compromisso coletivo são
elementos essenciais para a preservação do Estado democrático de direito.
Portanto, ao refletirmos sobre o 21 de abril nesse
contexto contemporâneo marcado por tensões políticas e tentativas de ruptura
institucional, torna-se evidente que a verdadeira homenagem a Tiradentes, volto
a reforçar, não reside apenas na memória histórica, mas na ação cotidiana em
defesa da democracia. Em um país de proporções continentais com desafios
estruturais e desigualdades sociais profundas, preservar a democracia não é
apenas um dever político, é uma responsabilidade de cada cidadão brasileiro.
Para explicitar ainda melhor sobre Tiradentes e
a democracia sob vigilância: uma reflexão necessária, reforço a análise
teórica do ponto de vista dos autores Milton Santos, geógrafo e intelectual
brasileiro, escritor e cientista; Pierre Bourdieu, sociólogo, filósofo e
antropólogo francês; e Jürgen Habermas, filósofo e sociólogo alemão,
cujas perspectivas permitem compreender os mecanismos simbólicos e estruturais
que sustentam e que fragilizam os regimes democráticos, tendo como ponto de
convergência a crítica de que as estruturas de poder geram exclusão social e desigualdade.
A figura de Tiradentes que ao longo do tempo, foi
tida como símbolo nacional de resistência e patriotismo, na minha percepção
muda na construção simbólica compreendida a partir das reflexões de Milton
Santos, que destacou que “a importância do território e da história na
formação da consciência social e política”. Para o autor: “o espaço não
é apenas geográfico, mas também social e político, configurando-se como arena
de disputas simbólicas e materiais”.
Observando pela ótica de Milton Santos, o 21 de
abril deve ser compreendido como um momento de reafirmação da memória coletiva,
que contribui para a formação de valores democráticos. Essa memória também pode
ser instrumentalizada ou esvaziada quando reduzida a rituais comemorativos
desprovidos de reflexão crítica, como acontece como muitas datas comemorativas
históricas e sociais. A historicização da figura de Tiradentes revela que a
luta por autonomia política, inicialmente voltada contra a dominação colonial,
permanece atual na medida em que novas formas de controle e desigualdade
continuam a influenciar a dinâmica social e política brasileira.
As tensões
democráticas contemporâneas podem ser compreendidas a partir das contribuições
de Pierre Bourdieu, especialmente no que se refere ao conceito de poder
simbólico. Para Bourdieu, “o poder não se exerce apenas pela força material,
mas também pela capacidade de impor visões de mundo consideradas legítimas”.
Sendo assim, as disputas políticas contemporâneas são também disputas
narrativas, nas quais diferentes grupos buscam legitimar suas interpretações da
realidade reafirmando o princípio da violência simbólica e imposição de
sentidos. As disputas narrativas contemporâneas
defendidas por Bourdieu se revelam nas lutas políticas atuais e envolvem a
construção de verdades através de narrativas, onde grupos buscam legitimar suas
posições e interpretações sobre economia, a história, as ciências, a cultura e
as artes onde os diferentes campos (midiático, político, educacional) funcionam
como espaços de luta pela definição legítima da realidade, com agentes utilizando
capitais simbólicos, como o prestígio e a linguagem para dominar.
Os acontecimentos recentes no Brasil, especialmente
os eventos associados aos ataques de 8 de janeiro de 2023, evidenciam a
centralidade das narrativas na construção de legitimidade política. A
circulação de desinformação e discursos que questionam a legitimidade das
instituições democráticas pode ser compreendida como manifestação de um campo
político em disputa, em que agentes sociais mobilizam capitais simbólicos para
sustentar seus projetos de poder.
Dessa forma, a vulnerabilidade democrática não se
manifesta apenas através de ações diretas contra instituições governamentais,
mas também pelo desgaste contínuo e silencioso da confiança pública, elemento
essencial para a estabilidade política. Esse processo reforça a necessidade de
compreender a democracia como construção social que depende da legitimação
contínua por parte de todos os cidadãos.
Ainda refletindo sobre a fragilidade democrática
também pode ser analisada sob a ótica da ação comunicativa de Jürgen Habermas,
que enfatiza o papel da esfera pública na mediação da opinião coletiva e os
espaços de poder. Para Habermas, “a democracia depende de processos
comunicativos baseados no diálogo racional e no reconhecimento mútuo entre os
participantes”. Espaços
onde cidadãos discutem temas de interesse comum, formando uma opinião pública
racional que legitima o poder político através do diálogo e do reconhecimento
mútuo. Essa abordagem valoriza a democracia deliberativa, que substitui a
simples votação, uma visão agregativa, pela formação de vontade coletiva
através de trocas comunicativas livres de coação.
No entanto, é preciso está vigilante, pois o
ambiente contemporâneo, marcado pela disseminação acelerada de informações em
redes digitais, apresenta desafios significativos à manutenção de uma esfera
pública racional. A ampliação de discursos polarizados e a circulação de conteúdos
não verificados contribuem para a fragmentação do debate público e para o
enfraquecimento do consenso democrático.
A reflexão crítica sobre o 21 de abril revela que a
democracia deve ser compreendida como processo histórico em constante
construção. A memória de Tiradentes, reinterpretada à luz das teorias de
Santos, Bourdieu e Habermas, permite compreender que a defesa da democracia
exige não apenas instituições formais, mas também uma cultura política
comprometida com a participação cidadã e com o respeito à diversidade.
É importante reconhecer a democracia como
construção coletiva, assim reforça-se a responsabilidade histórica dos cidadãos
na manutenção das conquistas políticas alcançadas ao longo do tempo.
3. 3. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A celebração do 21 de abril, tradicionalmente associada à memória de Tiradentes, adquire novo significado quando analisada à luz dos desafios contemporâneos enfrentados pela democracia brasileira. Assim, a memória de Tiradentes deixa de ser apenas referência ao passado e passa a constituir instrumento de análise crítica do presente, tornando a verdadeira homenagem a esse líder da inconfidência, um reconhecimento que a liberdade e a democracia não são conquistas definitivas, mas construções históricas sujeitas a tensões e disputas.
A defesa desses valores exige participação ativa,
reflexão crítica e compromisso ético com a preservação das instituições
democráticas, garantindo que os ideais de autonomia e justiça continuem orientando
o projeto coletivo da sociedade brasileira.
Referências
BOBBIO, Norberto. O futuro da democracia.
São Paulo: Paz e Terra, 2000.
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de
Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.
HABERMAS, Jürgen. Mudança estrutural da esfera
pública. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2003.
HABERMAS, Jürgen. Direito e democracia: entre
facticidade e validade. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1997.
SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e
tempo, razão e emoção. São Paulo: Edusp, 2006.
SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do
pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record, 2000.
FAUSTO, Boris. História do Brasil. São
Paulo: Edusp, 2013.
CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil: o
longo caminho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011.
SCHWARCZ, Lilia Moritz; STARLING, Heloisa Murgel. Brasil:
uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
Itapecuru Mirim - MA. 21 de 04 de 2026
Assenção Pessoa, professora, escritora, pesquisadora.




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